SÉRIE DE ENTREVISTAS: “É meu dever representar àquilo em que acredito e levantar bandeiras que devam ser pautadas na sociedade contemporânea, independentemente se agrada ou desagrada à maioria”

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Assim como o Mikhail, os demais entrevistados da série enviaram suas respostas via rede social

O bezerroshoje.com dá sequência a série de entrevista com lideranças e personalidades  da política bezerrense e, neste sábado, entrevista o bezerrense Mikhail Gorbachiov, 27 anos, presidente do PCdoB. Ele é formado em Ciência Sociais pela UFPE e é funcionário público. Foi candidato a vereador nas últimas eleições municipais numa chapa de partidos que apoiaram a candidatura a prefeito de Carlos Francisco (Dr. Carlinhos) e que elegeu um representante para o legislativo municipal. Mikhail faz oposição clara a gestão do prefeito Branquinho, com duras críticas na rede social. O bezerroshoje.com aborda temas da política local, possíveis contradições e faz projeções futuras do partido no município. Você pode conferir as últimas entrevistas e ter sua própria visão do quadro que se desenha para 2016. Leia e seja você mesmo um formador de opiniões. Clique nos links Marcone Borba, Josevânio Miranda e Nivaldo Santino.

BEZERROSHOJE – Você vem de uma família tradicional em Bezerros, é parente de uma das lideranças mais lembradas no município, que é o ex-vereador Marco Pontes, e tem uma militância política em defesa das causas minoritárias, com posições claras e até polêmicas. Esse perfil dificulta sua atuação política no município, que tem uma característica mais tradicionalista?

Mikhail Gorbachiov,-  Há quem diga que sim. Mas eu discordo. Acredito que a política se faz com posicionamentos e coerência. E O traço tradicionalista na política bezerrense está impregnado em seu DNA. As pessoas criticam a forma de se fazer política; a compra de votos (descarada); a corrupção; os vereadores e, até chegam a dizer que não irão mais votar em ninguém. Mas quando chegam às eleições municipais, todo o discurso cai por terra e lá estão votando nos mesmos vereadores; naqueles que compram voto; apertando a mão daquele que tacham de corrupto ou trocando seu voto em uma esperança de um contrato na prefeitura. Óbvio que existe público e público. Para uns que entram para o campo político mais valem a forma de clientelismo (onde o eleitor é objeto de compra), estes “políticos” não têm visão do que se pode fazer com um instrumento de suma importância como a política. Entram pensando em obter vantagens, status e fazer da vida pública uma profissão. E em Bezerros tem muitos assim. Estes irão atrás do público que aceita a política de clientela. No meu caso, meu posicionamento visa atingir a outro tipo de público, mas também dialogar com o público-alvo do clientelismo e mostrar que a forma com que se trata o direito do cidadão escolher seu representante na base da compra está equivocado. Conheci à política na Universidade, quando fui militante do movimento estudantil. De lá pra cá, ingressei no PC do B (2008) e tenho contribuído para a caminhada da legenda, seus equívocos e seus acertos. A política pra mim é um instrumento de transformação e mudança social, e não um meio para se ganhar dinheiro. Durante 5 anos trabalhamos voluntariamente ministrando aulas no cursinho FREEVEST, infelizmente no período em que tive de ir estudar em Recife, não foi mais possível. Mas sonho em poder contribuir novamente para a conquista dos sonhos de muitos bezerrenses. E isso independentemente de política. Graças aos esforços de meu pai e de minha mãe, e posteriormente o meu, conquistei uma vaga no funcionalismo público. Estudo pra mim é uma forma de conquistar meus sonhos. Política é uma forma de se trabalhar pelo coletivo. Muitos discordam piamente, mas carrego comigo uma certeza: política é algo sério demais para ser tratado como piada.

2- BEZERROSHOJE – O PCdoB sempre teve uma marca nas campanhas do ex-prefeito Marcone, que liderava a oposição no município. Em 2008, deu uma guinada ‘à direta’, compondo a vice com a ex-prefeita Bete, que tinha o apoio declarado do grupo do ex-prefeito Amaro Rufino tão combatido nas eleições passadas. Foi um erro essa posição do partido?

Mikhail Gorbachiov – Não considero um erro. A conjuntura da época era clara: Marcone havia perdido a coerência entre seu discurso e sua prática. Chegou à prefeitura representando uma mudança que há muito se esperava. Mas ao chegar, não mostrou a que veio. Foi um governo segregacionista e permeado de equívocos (em sua maioria). Afastou a base aliada e centralizou o governo em torno dos interesses dos financiadores de campanha. Foi uma lástima para o que se esperava. Diante disso, a candidadura que se lança como oposição ao governo Marcone, nada mais é que uma aliança de partidos que comporam sua base quando ele foi eleito. Bete era sua vice, e Carlinhos era suplente de vereador. Ambos tiveram sua importância para a chegada de Marcone, e todos sabem que se Bete não tivesse sido sua vice, Maru e Pedro Jorge tinham chances claras de chegar. Então, a chapa Bete e Carlinhos representava uma oposição de centro-esquerda, e não de direita. Ambos partidos, PR e PC do B, estavam alinhados tanto na conjuntura nacional, quanto estadual. Porém, os grupos de direita decidiram apoiar a candidatura. Por exemplo, em 2012 tivemos estes mesmos grupos da direita apoiando a candidatura de Branquinho e Breno. Marcone, por sua vez, estava junto e com aqueles que ele e seu grupo sempre combateram. Também seria um erro? Acredito que existe uma diferença enorme em ser apoiado e apoiar.

3-BEZERROSHOJE – Uma vez na vice-prefeitura, o partido, mesmo que temporariamente, chegou ao maior posto da política local que é o governo municipal. Em 2012 apresentou candidatura para prefeito e, mesmo não logrando êxito, elegeu um representante para o legislativo. A maior liderança do partido, o Dr. Carlinhos, acabou deixando a legenda e o vereador Elissandro foi merecedor de críticas pela sua atuação no legislativo. Como explica isso?

Mikhail Gorbachiov – Chegamos a assumir a prefeitura por duas semanas, em 2012. Semanas que até hoje repercutem no meio social pela postura diferenciada e coerente com que tratamos a gestão pública. Foi uma experiência de muita satisfação para nós do PC do B, uma vez que imprimimos na prática aquilo que acreditamos. Dialogamos com os setores da sociedade e buscamos atender às demandas de maior urgência, dentro das possibilidades. Hoje, o maior capitalizador desse período, Carlinhos, não se encontra mais nas hostes do PC do B. Porém, o pleito de 2012 nos rendeu uma cadeira no legislativo, ocupada por Elissandro. Quando se trabalha a construção de uma candidatura majoritária, os partidos correm o risco de arregimentar em seus quadros, pessoas de identificação partidária e pessoas de não-identificação partidária, mas que representam setores da sociedade civil, para dar corpo às candidaturas proporcionais e eleger vereadores. É uma espécie de aposta. Nós corremos este risco e assumimos as posteriores consequências. Elissandro não correspondeu às expectativas de um mandato legislativo de nosso partido. Não fez oposição; abraçou a defesa da gestão municipal; fez discursos contrários à bandeiras que o partido defende e nas eleições de 2014, fez campanha para candidatos contrários ao nosso posicionamento: Marina, Aécio, Waldemar Borges, abraçando apenas a candidatura de Luciana Santos para Deputada Federal. Se o mandato já não correspondia, estes acontecimentos foram a gota d’agua. Mas quando erramos temos de assumir as consequências e tratar a questão. Diante disso, conversamos com o Vereador e deixamos claro que ele não comporá mais nossos quadros, que deve se desfiliar e tomar um rumo partidário diferente. Deixando bem claro que a questão não era de cunho pessoal, mas sim, político.

4- BEZERROSHOJE  – Comenta-se que a Deputada Federal Luciana Santos e a cúpula do PCdoB não deu o devido apoio que a chapa majoritária merecia em 2012. Pode comentar?

Mikhail Gorbachiov – Luciana sempre viu com bons olhos a nossa candidatura em 2012. Mas não foi fácil colocá-la nas ruas. Tivemos bombardeios de todos os lugares. Algumas figuras políticas temiam nossa candidatura porque ela representava uma ruptura com as formas arcaicas que sempre se fez política em Bezerros. Até chegarmos a ter Glaucia Oliveira como nossa vice, muitas investidas foram feitas para nos enfraquecer, e não vieram do PC do B, nem de Luciana. Marco Pontes estava sendo cotado para ser nosso vice, mas bastou isso ventilar nos bastidores, que trataram de correr atrás para que desse errado. Politicamente, o partido pecou pela morosidade no processo, e durante a campanha esperávamos mais do Partido, mas os recursos eram parcos.

5- BEZERROSHOJE – Na sua rede social, o seu posicionamento crítico em relação ao governo municipal é bastante contundente. Há erros e acertos, ou só erros?

Mikhail Gorbachiov – Acredito que apenas o governo Bete não tenha apresentado acertos. Mas o governo Branquinho tem acertos, mas erra muito. Talvez os erros sejam em detrimento dos compromissos e amarras políticas que tenha feito para chegar à prefeitura. Minhas críticas são abertas não apenas ao governo, mas também à Câmara Municipal. O governo é centralizador, autoritário, não democrático, elitista, classista, coronelista e uma série de adjetivos que não têm fim. E exemplos, temos muitos: o concurso público foi realizado, mas ao invés de chamar os aprovados, o governo prefere manter a máquina inchada com contratos; a guarda municipal e os agentes de trânsito necessitam de concurso público e nada se fez; as periferias da cidade sofrem com problemas básicos; a saúde é problemática; a cidade é mal iluminada; violenta; a geração de emprego e renda até agora não saiu dos discursos; Bezerros é a única cidade que não dispõe transporte para seus universitários se deslocarem até as faculdades; as estradas dos distritos são esquecidas; a Serra Negra cresce descontroladamente pondo em risco o meio ambiente; existe distinção no trato do público e dos comerciantes que frequenta a Serra Negra e o Centro da cidade, isto pode ser notado através do decreto 1.135 que trata distintamente quanto à proibição de equipamento sonoro na Rua da Matriz; etc. Falta diálogo com os setores, mas sobra fantasia e imaginação. O governo governa para o centro da cidade. Mas se você for às periferias você verá e escutará depoimentos que versam sobre a realidade. E se a realidade fosse essa que se pinta, a aprovação do governo não teria caído..

6- BEZERROSHOJE – Quais os planos do PCdoB para as eleições de 2016 no município?

Mikhail Gorbachiov – O PC do B intenta lançar candidaturas proporcionais para conquistar seu espaço na câmara municipal e de fato representar a cidade e os grupos menos favorecidos. Mas não descartamos a possibilidade de lançar uma candidatura majoritária.

7-BEZERROSHOJE – Como o partido analisa a atual legislatura?

 Mikhail Gorbachiov – Sempre aprendi que os poderes são independentes e harmônicos, mas em Bezerros isso não se percebe. A Câmara Municipal é totalmente subserviente ao Governo Municipal. Não existe nada que seja debatido, confrontado… Isso é um absurdo! Até parece que os vereadores devem algo ao prefeito porque o compadrio é muito grande. A exceção do vereador Eugênio, você não vê muita coisa não. É uma câmara corporativista. Dois exemplos que demonstram a fraqueza de nosso legislativo podem ser percebidos quando você observa a ausência de debate quanto à inclusão das temáticas: gênero e sexualidade no Plano Municipal de Educação (isso mostra à apatia com que as pautas importantes são tratadas). O outro exemplo é a possibilidade de ser contrária ao aumento de vagas no legislativo. Ao invés de ampliarem a democracia no espaço, eles a travam por motivações que vão de pessoais à ausência de conhecimento de leis. Se a população de fato tem aquilo que merece, eu sofro muito pelos bezerrenses.

8- BEZERROSHOJE – Na sua visão, como está a conjuntura política atual. A oposição sairá unida em Bezerros?

Mikhail Gorbachiov – A oposição tardou em se apresentar em Bezerros. E isso contribuiu muito para o governo municipal figurar como satisfatório. As redes sociais são ferramentas importantes, mas ir às ruas e sair da zona de conforto é mais importante ainda. Acredito numa possível composição entre as forças oposicionistas em torno de união. Mas ainda é muito cedo para dizer se isto se concretizará. As conversas iniciaram e até agora o discurso está oníssono. Mas acredito que teremos duas candidaturas, mas não mais que três.

9- BEZERROSHOJE – Suas considerações finais…

Mikhail Gorbachiov – Gostaria de agradecer pelo convite e parabenizar ao Bezerros Hoje pela iniciativa de trazer á tona as discussões sobre a política bezerrense e suas conjecturas. Espero ter contribuído e elucidado algumas questões. E, também ter despertado mais atenção dos munícipes para as questões de nossa querida cidade. Agradecido!

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