O QUE O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA REPRESENTA PARA MILHARES DE MULHERES BRASILEIRAS

Quando uma mulher recebe o Bolsa Família, muita gente ainda faz a mesma pergunta: “Será que ela não quer trabalhar?” Mas quase ninguém pergunta quantas jornadas ela já enfrenta antes mesmo do amanhecer.

Existe um preconceito antigo contra mulheres pobres, principalmente aquelas que dependem de políticas públicas para garantir o básico aos seus filhos e filhas. Como se receber auxílio fosse sinal de acomodação e não, muitas vezes, resultado da desigualdade, da ausência de oportunidades e da responsabilidade quase sempre concentrada sobre os ombros femininos.

O Programa Bolsa Família não representa riqueza. Não representa conforto. Representa sobrevivência. Para muitas mulheres, especialmente mães solo e chefes de família, o benefício significa comida na mesa, permanência dos filhos e filhas na escola, acesso à saúde e um pouco mais de segurança diante das incertezas da vida. Não resolve todos os problemas, mas impede que muitos lares afundem ainda mais na pobreza.

O programa prioriza mulheres justamente porque elas são, na maioria das vezes, as responsáveis pela gestão e pelo cuidado das famílias. Ainda assim, persiste um julgamento silencioso. Há quem enxergue o benefício como privilégio, esquecendo que nenhuma mulher escolhe a vulnerabilidade como projeto de vida.

Muitas trabalham na informalidade, enfrentam dupla ou tripla jornada e seguem tentando sustentar suas famílias com dignidade.

Estudos recentes, inclusive, apontam que o Bolsa Família não afasta as mulheres do mercado de trabalho, desmontando um discurso frequentemente repetido sem conhecimento da realidade. Talvez o problema esteja justamente aí: ainda há quem enxergue a pobreza como falha moral, e não como questão social.

Antes de julgar uma mulher beneficiária do Bolsa Família, talvez seja preciso perguntar menos se ela quer trabalhar e perguntar mais quais oportunidades, apoios e direitos lhe foram negados ao longo da vida.

Fontes consultadas: Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) e pesquisas sobre proteção social e mercado de trabalho feminino.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos femininos, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

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