Olhar Feminino, por Michelle Silvestre

Seu voto pode salvar a vida de uma mulher.

Em ano eleitoral, refletir sobre o compromisso das candidaturas com políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher também faz parte do exercício da cidadania.

Estamos em um ano de eleições. Em meio aos debates, propostas e disputas políticas, uma pergunta merece reflexão: que tipo de sociedade queremos construir e quais vidas serão prioridade nas políticas públicas?

Quando falamos sobre a violência contra as mulheres, não tratamos de uma realidade distante. Muitas vítimas estão na família, na vizinhança, no ambiente de trabalho ou na escola. Em diversos casos, enfrentam a violência em silêncio e dependem de uma rede de proteção eficiente para romper esse ciclo.

Nesse contexto, o período eleitoral também é uma oportunidade para que o eleitor conheça as propostas e a trajetória das candidaturas relacionadas às políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.

Mais do que observar discursos de campanha, é importante conhecer o histórico de atuação, as propostas apresentadas e o compromisso demonstrado com ações de prevenção, acolhimento e enfrentamento da violência de gênero.

Essa análise não deve estar relacionada ao gênero da candidatura, mas às políticas públicas defendidas, às iniciativas desenvolvidas e ao compromisso com a garantia de direitos.

Os dados oficiais mostram que o feminicídio e outras formas de violência contra a mulher continuam sendo desafios para o Brasil. Por trás de cada número existem histórias interrompidas, famílias impactadas e vidas perdidas.

Por isso, durante o processo eleitoral, é legítimo que a sociedade acompanhe os debates e conheça quais propostas cada candidatura apresenta para fortalecer a rede de proteção às mulheres, ampliar ações preventivas e garantir o acesso aos serviços públicos.

As escolhas feitas nas urnas influenciam diretamente a formulação e a continuidade de políticas públicas em diversas áreas, inclusive na proteção às mulheres.

Para muitas vítimas, políticas públicas eficazes representam acolhimento, acesso à justiça, proteção e a possibilidade de romper o ciclo da violência.

Conhecer propostas, acompanhar o debate público e exercer o voto de forma consciente também fazem parte da participação democrática.

Michelle Silvestre é assistente social e podóloga. Por meio da escrita, desenvolve reflexões sobre os direitos das mulheres, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

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Olhar feminino, por Michelle Silvestre

Você sabe por que existe o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha?

O dia 25 de julho se aproxima e traz uma importante oportunidade de reflexão. Nessa data é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, uma homenagem que vai muito além de uma simples comemoração. Mas você sabe como essa data surgiu e por que ela é tão importante?

A história começa em 1992, quando mais de 300 mulheres negras de 32 países da América Latina e do Caribe se reuniram em Santo Domingo, na República Dominicana, para o 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas. O objetivo era discutir problemas que, apesar das diferenças entre os países, eram comuns à realidade dessas mulheres: o racismo, a desigualdade, a violência, a exclusão social e a dificuldade de acesso a direitos básicos.

Ao final do encontro, elas decidiram instituir o dia 25 de julho como uma data internacional de mobilização e reflexão. Mais do que uma homenagem, o dia passou a representar o compromisso de dar visibilidade às contribuições das mulheres negras para a sociedade e fortalecer a luta por igualdade de direitos e oportunidades.

No Brasil, o dia 25 de julho também é celebrado como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, em homenagem à líder quilombola que viveu no século XVIII e se tornou símbolo de resistência, coragem e liderança na luta contra a escravidão.

Celebrar essa data não significa criar diferenças entre as mulheres, mas reconhecer que nem todas vivenciam as mesmas oportunidades. As mulheres negras ainda enfrentam desafios históricos relacionados ao racismo, ao machismo, à violência, à desigualdade salarial e à menor representatividade em espaços de poder. Por isso, o dia 25 de julho convida toda a sociedade a refletir sobre justiça social, equidade e respeito à diversidade.

Também é um momento para reconhecer o protagonismo das mulheres negras na construção do Brasil. Elas estão presentes na educação, na saúde, na assistência social, na cultura, na ciência, na política, no empreendedorismo e em tantas outras áreas que ajudam a transformar a realidade de suas comunidades.

Mais do que recordar uma luta histórica, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha nos lembra que uma sociedade verdadeiramente democrática se constrói quando todas as pessoas têm seus direitos respeitados, suas vozes ouvidas e suas histórias valorizadas.Afinal, conhecer a origem dessa data é compreender que ela não nasceu para dividir pessoas, mas para lembrar que igualdade só existe quando ninguém é deixado para trás.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre os direitos das mulheres, a saúde emocional, a cidadania e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano, contribuindo para o fortalecimento do diálogo, da informação e da promoção da igualdade.

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Olhar feminino, por Michelle Silvestre

A VIOLÊNCIA DIGITAL CONTRA AS MULHERES E A IMPORTÂNCIA DA DENÚNCIA.

A violência contra as mulheres não acontece apenas dentro de casa, nas ruas ou nos ambientes de trabalho. Ela também está presente nas redes sociais, nos aplicativos de mensagens e nos diversos espaços digitais que fazem parte do nosso cotidiano.

Dados recentes mostram que as denúncias de violência digital registradas pelo Ligue 180 cresceram 188,6% entre os cinco primeiros meses de 2025 e o mesmo período de 2026. O número passou de 5.795 para 16.725 registros, revelando uma realidade que exige atenção e enfrentamento.

À primeira vista, o aumento pode causar preocupação. No entanto, ele também evidencia um aspecto importante: cada vez mais mulheres estão reconhecendo essas situações como formas de violência e buscando ajuda por meio dos canais de proteção disponíveis.

Nos últimos anos, o Ligue 180 passou por melhorias que ampliaram sua capacidade de acolhimento e atendimento. O fortalecimento do serviço contribui para reduzir a subnotificação, permitindo que casos antes silenciados cheguem ao conhecimento da rede de proteção.

A violência digital pode ocorrer de diversas formas, incluindo ameaças, perseguições, divulgação indevida de imagens, invasão de perfis, chantagens e ataques de ódio. Embora aconteça em ambientes virtuais, seus efeitos são reais e podem comprometer a saúde emocional, a segurança e a dignidade das vítimas.

Por isso, é fundamental compreender que a internet não é uma terra sem lei. Os direitos das mulheres devem ser respeitados também nos espaços digitais. Informar, denunciar e fortalecer os mecanismos de proteção são passos importantes para enfrentar uma violência que acompanha as transformações da sociedade e das tecnologias.

Mais do que números, o crescimento das denúncias nos mostra que romper o silêncio continua sendo uma das ferramentas mais importantes no combate à violência contra as mulheres.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos das mulheres, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

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Olhar Feminino, por Michelle Silvestre

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL TAMBÉM PODE PROTEGER MULHERES E COMBATER A DESINFORMAÇÃO

Quando se fala em inteligência artificial, muita gente ainda pensa apenas em tecnologia distante, difícil e restrita a grandes empresas. Mas a realidade já é outra. A IA também está sendo usada para proteger direitos, combater a violência e enfrentar a desinformação, especialmente quando se trata da vida das mulheres e de grupos historicamente vulneráveis.

No Brasil, já existem iniciativas que utilizam inteligência artificial com um propósito diferente daquele que normalmente aparece nas grandes plataformas digitais. Em vez de reforçar desigualdades, essas ferramentas são desenvolvidas com foco em direitos humanos, inclusão e enfrentamento à violência digital.

Essas tecnologias surgem em um cenário preocupante. Milhões de mulheres brasileiras relatam já ter sofrido algum tipo de violência no ambiente digital, como ameaças, perseguição, difamação e ataques de ódio nas redes sociais. Esse tipo de violência afeta a saúde emocional, a segurança e até a participação das mulheres na vida pública.

Diante dessa realidade, algumas iniciativas têm mostrado que a tecnologia também pode ser uma aliada. A Quitér.IA, por exemplo, monitora projetos de lei relacionados aos direitos das mulheres e de grupos historicamente vulnerabilizados. Já a Sentinela auxilia na identificação de padrões de violência política contra pessoas LGBTQIAPN+, enquanto o Chatbot Maria Valente oferece informações sobre direitos das mulheres de forma simples e acessível.

Mais do que ferramentas digitais, essas iniciativas representam novas formas de proteção, informação e participação social. Elas demonstram que a tecnologia pode ser utilizada para fortalecer direitos e ampliar o acesso ao conhecimento.

Por isso, discutir inteligência artificial também é discutir cidadania, inclusão e democracia. Em um mundo cada vez mais conectado, compreender essas ferramentas se torna fundamental para que mais pessoas possam participar das transformações que já estão acontecendo.

A tecnologia pode ser um espaço de exclusão, mas também pode ser um caminho de proteção, autonomia e fortalecimento de direitos. O desafio é garantir que ela esteja a serviço das pessoas e da construção de uma sociedade mais justa.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos das mulheres, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

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Olhar Feminino, por Michelle Silvestre

O SABOR DAS FESTAS JUNINAS TAMBÉM TEM MÃOS DE MULHER

Quando penso nas festas juninas da minha infância, as primeiras lembranças que me vêm à mente não são apenas as bandeirinhas coloridas, a fogueira acesa ou o som do forró. Lembro também das mulheres da minha família, reunidas na cozinha, trabalhando para que tudo estivesse pronto a tempo da celebração.

Lembro da minha avó ralando milho para fazer canjica. Lembro da minha mãe preparando pamonha, bolo de milho e tantas outras comidas que davam às festas juninas um sabor especial. Havia alegria, conversa, afeto e tradição. Mas havia também muito trabalho.

Durante muitos anos, essa cena me pareceu natural. Afinal, era assim que as coisas aconteciam. As mulheres organizavam a comida, cuidavam dos detalhes, preparavam a mesa e garantiam que todos fossem bem recebidos. Enquanto isso, era comum ver os homens conversando, assistindo à televisão ou aguardando o momento da confraternização, enquanto tudo ficava pronto.

Hoje, quando olho para essas lembranças com mais atenção, percebo algo que talvez passasse despercebido para muitas famílias. Grande parte do trabalho necessário para que a festa acontecesse recaía sobre as mulheres.

Essa reflexão não diminui a beleza das nossas tradições. Não é uma crítica à canjica feita em casa, à pamonha preparada em família ou aos momentos de convivência que marcam o mês de junho. Pelo contrário. É justamente porque essas memórias são tão valiosas que vale a pena refletir sobre elas.

As festas juninas continuam sendo um dos momentos mais bonitos da cultura nordestina. Mas talvez possamos pensar em formas mais compartilhadas de manter essa tradição viva. Se todos desfrutam da festa, todos também podem participar da sua construção.

Os meninos podem aprender a ajudar na cozinha. Os homens podem dividir as tarefas domésticas que antecedem as comemorações. As novas gerações podem crescer compreendendo que cuidar, organizar e preparar uma celebração não são responsabilidades exclusivamente femininas.

A tradição não se perde quando as tarefas são compartilhadas. Na verdade, ela se fortalece. Porque aquilo que é construído coletivamente se torna mais leve, mais justo e mais capaz de atravessar gerações.

Talvez uma das maiores homenagens que possamos prestar às mulheres que vieram antes de nós seja reconhecer o trabalho que realizaram silenciosamente durante tantos anos. Um trabalho que alimentou famílias, preservou costumes e garantiu que muitas das nossas melhores lembranças existissem.

Afinal, por trás do sabor das festas juninas, existem histórias, cuidados e mãos de mulheres que ajudaram a manter viva uma tradição que continua fazendo parte de quem somos.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos das mulheres, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

Bezerros Hoje 23 anos – Compromisso com a Notícia.

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Olhar Feminino, por Michelle Silvestre

Por que ainda questionam mulheres que entendem de futebol?

Nos últimos dias, um episódio envolvendo uma jornalista esportiva voltou a chamar a atenção para uma realidade que muitas mulheres enfrentam diariamente: a necessidade constante de provar sua competência em espaços tradicionalmente ocupados por homens.

Embora o futebol seja uma paixão nacional compartilhada por milhões de brasileiros e brasileiras, ainda é comum que mulheres que atuam na cobertura esportiva tenham seus conhecimentos questionados antes mesmo de serem ouvidas. Enquanto homens são reconhecidos como especialistas, mulheres frequentemente precisam demonstrar repetidas vezes que entendem do assunto para conquistarem o mesmo respeito.

Essa situação não afeta apenas jornalistas. Ela alcança comentaristas, árbitras, treinadoras, dirigentes e até mesmo torcedoras que, muitas vezes, escutam que “não entendem de futebol” simplesmente por serem mulheres.

O problema não está no esporte, mas em uma cultura que durante décadas associou determinados espaços exclusivamente ao universo masculino. Felizmente, essa realidade vem mudando. Hoje, as mulheres ocupam cada vez mais funções no futebol e contribuem para tornar o esporte mais diverso, democrático e representativo.

Questionar a presença feminina nesses ambientes não fortalece o futebol. Pelo contrário, limita seu crescimento. O conhecimento não tem gênero, assim como a paixão pelo esporte também não.

Em tempos de competições internacionais e grande mobilização dos torcedores, vale lembrar que futebol é lugar de quem gosta, acompanha, estuda, trabalha e vibra com o esporte. E isso inclui, sem qualquer dúvida, as mulheres.

Respeitar a presença feminina no futebol não é um favor. É reconhecer uma realidade que já existe e que merece ser valorizada.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos das mulheres, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

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Olhar Feminino, por Michelle Silvestre

Neste Dia dos Namorados, um convite: namore-se!

Quando pensamos no Dia dos Namorados, geralmente imaginamos flores, presentes, declarações de amor e casais celebrando juntos. Mas hoje eu gostaria de fazer um convite diferente, especialmente às mulheres: que tal aproveitar esta data para fortalecer o relacionamento mais importante da sua vida, aquele que você tem consigo mesma?

Aprender a se amar não é uma tarefa simples. Na verdade, para muitas mulheres, é um desafio diário. Fomos educadas para cuidar dos outros, para acolher, proteger, compreender e colocar as necessidades alheias em primeiro lugar. Desde cedo, aprendemos a ser filhas dedicadas, esposas atenciosas, mães presentes, profissionais comprometidas. Mas raramente nos ensinaram a olhar para nós mesmas com o mesmo carinho e dedicação.

Muitas vezes, nos cobramos excessivamente, ignoramos nossos limites, adiamos nossos sonhos e deixamos nossos desejos para depois. Com o tempo, vamos nos acostumando a oferecer amor para todos ao nosso redor, enquanto esquecemos de reservar um pouco desse amor para nós.

Namorar-se é justamente resgatar esse cuidado. É aprender a respeitar seus sentimentos, reconhecer suas conquistas, acolher suas vulnerabilidades e compreender que você não precisa ser perfeita para ser valiosa. É entender que seu valor não depende da aprovação de ninguém, nem de estar em um relacionamento para se sentir completa.

Talvez esse seja um dos maiores desafios que enfrentamos: perceber que também merecemos receber de nós mesmas o carinho, a compreensão e o respeito que tantas vezes oferecemos aos outros.

Celebre o amor, sim. Mas não esqueça de celebrar também a mulher que você é. A mulher que enfrenta desafios, carrega responsabilidades, supera obstáculos e, muitas vezes, continua de pé mesmo quando ninguém vê suas lutas.

Feliz Dia dos Namorados para todas as mulheres que estão aprendendo, todos os dias, a cultivar o amor mais transformador de todos: o amor-próprio. Não é fácil, mas é possível. E, acima de tudo, não há pressa. Cada mulher tem sua própria história, suas dores, seus medos e o seu tempo.

O amor-próprio não nasce de uma decisão radical tomada da noite para o dia. Ele é construído aos poucos, em pequenos passos, em escolhas diárias, em descobertas e recomeços. Que você respeite o seu processo, honre sua trajetória e siga no seu ritmo. Porque florescer também é uma questão de tempo, e cada mulher merece viver essa transformação sem cobranças, mas com muito amor e gentileza consigo mesma.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos femininos, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

Bezerros Hoje 23 anos- Compromisso com a Notícia.

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O CICLO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: POR QUE É TÃO DIFÍCIL ROMPER?

Quando uma mulher sofre violência doméstica, uma das perguntas mais comuns que ela escuta é: “Por que você não saiu dessa relação?”.

Mas essa pergunta, muitas vezes, ignora uma realidade dolorosa: a violência raramente começa com agressões físicas e dificilmente acontece de forma isolada.

Na maioria dos casos, ela se instala aos poucos. Começa com comportamentos que muitas vezes são confundidos com cuidado ou preocupação: o controle excessivo, o ciúme, as críticas constantes, o afastamento de amigos e familiares e a tentativa de controlar a rotina, as escolhas e até os sentimentos da mulher.

Tudo isso já é violência e costuma provocar sofrimento, insegurança e perda gradual da autonomia. Muitas mulheres não percebem de imediato que estão vivendo uma relação abusiva, justamente porque esses comportamentos acabam sendo normalizados. Nem toda violência deixa marcas visíveis, mas isso não a torna menos dolorosa.

Com o passar do tempo, essas situações tendem a se intensificar. As agressões psicológicas tornam-se mais frequentes, surgem ameaças, constrangimentos e, em muitos casos, outras formas de violência, incluindo agressões físicas, sexuais ou patrimoniais.

Depois, porém, algo que confunde muitas vítimas acontece: vêm os pedidos de desculpas, as promessas de mudança, as demonstrações de carinho e o arrependimento. A mulher volta a acreditar que aquela situação não irá se repetir e alimenta a esperança de que tudo será diferente.

Mas, na maioria das vezes, o ciclo recomeça.

É justamente essa alternância entre sofrimento e esperança que torna tão difícil romper uma relação abusiva. Além disso, fatores como dependência financeira, filhos, medo, vergonha, ameaças e a falta de uma rede de apoio podem fazer com que muitas mulheres permaneçam em silêncio por anos.

Por isso, antes de julgar uma mulher que continua em uma relação violenta, talvez seja importante compreender que ninguém escolhe viver com medo. Muitas vezes, ela não permanece porque quer. Permanece porque acredita que a situação vai mudar ou porque não encontra condições seguras para recomeçar.

Reconhecer esse ciclo é um dos primeiros passos para interromper a violência e buscar ajuda.

Talvez a pergunta que precisamos fazer não seja “por que ela não saiu?”, mas sim: “o que podemos fazer para que ela não enfrente essa situação sozinha?”.

Porque, muitas vezes, o que falta não é coragem. É apoio.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos femininos, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

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O QUE O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA REPRESENTA PARA MILHARES DE MULHERES BRASILEIRAS

Quando uma mulher recebe o Bolsa Família, muita gente ainda faz a mesma pergunta: “Será que ela não quer trabalhar?” Mas quase ninguém pergunta quantas jornadas ela já enfrenta antes mesmo do amanhecer.

Existe um preconceito antigo contra mulheres pobres, principalmente aquelas que dependem de políticas públicas para garantir o básico aos seus filhos e filhas. Como se receber auxílio fosse sinal de acomodação e não, muitas vezes, resultado da desigualdade, da ausência de oportunidades e da responsabilidade quase sempre concentrada sobre os ombros femininos.

O Programa Bolsa Família não representa riqueza. Não representa conforto. Representa sobrevivência. Para muitas mulheres, especialmente mães solo e chefes de família, o benefício significa comida na mesa, permanência dos filhos e filhas na escola, acesso à saúde e um pouco mais de segurança diante das incertezas da vida. Não resolve todos os problemas, mas impede que muitos lares afundem ainda mais na pobreza.

O programa prioriza mulheres justamente porque elas são, na maioria das vezes, as responsáveis pela gestão e pelo cuidado das famílias. Ainda assim, persiste um julgamento silencioso. Há quem enxergue o benefício como privilégio, esquecendo que nenhuma mulher escolhe a vulnerabilidade como projeto de vida.

Muitas trabalham na informalidade, enfrentam dupla ou tripla jornada e seguem tentando sustentar suas famílias com dignidade.

Estudos recentes, inclusive, apontam que o Bolsa Família não afasta as mulheres do mercado de trabalho, desmontando um discurso frequentemente repetido sem conhecimento da realidade. Talvez o problema esteja justamente aí: ainda há quem enxergue a pobreza como falha moral, e não como questão social.

Antes de julgar uma mulher beneficiária do Bolsa Família, talvez seja preciso perguntar menos se ela quer trabalhar e perguntar mais quais oportunidades, apoios e direitos lhe foram negados ao longo da vida.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos femininos, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

Fontes consultadas: Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) e pesquisas sobre proteção social e mercado de trabalho feminino.

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A LEI MARIA DA PENHA MUDOU E MUITA GENTE AINDA NÃO SABE

Durante muito tempo, muitas mulheres acreditaram que violência era apenas agressão física. Mas a verdade é que a violência também acontece através do medo, da humilhação, do controle, das ameaças e da manipulação emocional.

Com o passar dos anos, a Lei Maria da Penha passou por mudanças importantes para ampliar a proteção às mulheres e acompanhar formas de violência que antes eram silenciosamente normalizadas dentro de muitos relacionamentos.

Hoje, por exemplo, a violência psicológica é reconhecida como crime. Isso significa que atitudes como controlar roupas, impedir amizades, humilhar, perseguir, ameaçar ou manipular emocionalmente também são formas de violência contra a mulher.

Outra mudança importante foi o fortalecimento das medidas protetivas. Em alguns casos, agressores podem ser monitorados por tornozeleira eletrônica e o descumprimento das medidas passou a ter punições mais severas.

Mas talvez o que muita gente ainda não saiba é que a Lei Maria da Penha não nasceu apenas da política. Ela nasceu da luta de mulheres que se recusaram a aceitar que violência doméstica fosse tratada como “pequena causa” ou resolvida com o pagamento de uma cesta básica.

A lei foi construída a partir da mobilização de movimentos de mulheres, juristas feministas e organizações que lutavam para que a violência contra a mulher fosse finalmente reconhecida como um problema grave e estrutural.

Mesmo com tantos avanços, muitas mulheres ainda permanecem em silêncio por medo, dependência emocional, financeira ou pela falta de apoio. Por isso, informação também é proteção.

A Lei Maria da Penha não é apenas uma legislação punitiva. Ela representa a tentativa contínua de proteger mulheres que, durante décadas, tiveram o medo silenciado dentro de casa.

Mais do que conhecer a lei, é preciso fortalecer a rede de apoio, acolher, escutar sem julgamentos e ajudar mulheres a compreenderem que violência nunca deve ser normalizada. Porque proteger mulheres também é uma responsabilidade coletiva.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos femininos, violência de gênero, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres na vida cotidiana.

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Olhar Feminino, por Michelle Silvestre

Elas acordam cedo, resolvem problemas, cuidam da casa, dos filhos, filhas, do trabalho, da família e ainda tentam encontrar forças para sorrir. Dizem que elas são fortes. Guerreiras. Que dão conta de tudo.
Mas ninguém pergunta como elas estão.

Vivemos em uma sociedade que romantiza o cansaço feminino. Como se fosse natural que mulheres carregassem o peso do mundo nas costas sem reclamar. E quando elas finalmente não conseguem mais suportar, são chamadas de exageradas, perturbadas ou “surtadas”.

A verdade é que muitas mulheres estão adoecendo em silêncio. Ansiedade, exaustão emocional, insônia, irritação constante, sentimento de culpa, tristeza profunda e perda da própria identidade têm feito parte da rotina feminina de forma cada vez mais comum.

Enquanto os homens ainda são, em grande parte, ensinados a dividir responsabilidades, muitas mulheres continuam sendo cobradas para dar conta de tudo: trabalho, maternidade, casa, relacionamento, filhos, aparência, cuidado e até o próprio autocuidado. Como descansar, quando até o descanso vira obrigação?

Ninguém ensinou às mulheres que viver no automático também as afasta de si mesmas. Muitas seguem apenas sobrevivendo entre cobranças, responsabilidades e a necessidade constante de provar o próprio valor.

Mães atípicas, mulheres chefes de família, trabalhadoras que enfrentam jornadas exaustivas e mulheres emocionalmente sobrecarregadas convivem diariamente com a falta de apoio, a vulnerabilidade financeira e a ausência de tempo para si mesmas. E quando uma mulher adoece, toda uma rede ao seu redor também enfraquece.

A verdade é que muitas mulheres estão sobrevivendo, não vivendo. Porque passaram tanto tempo tentando sustentar tudo e todos, que esqueceram de olhar para a própria dor.

Talvez esteja na hora de parar de perguntar por que as mulheres estão tão cansadas e começar a refletir sobre tudo o que a sociedade espera que elas suportem caladas.

E fica a reflexão: será que estamos realmente descansando ou apenas recarregando energia para conseguir sobreviver à próxima semana?

Precisamos parar de aplaudir mulheres por suportarem tudo e começar a perguntar o que podemos fazer para que elas não precisem suportar tanto.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Com trajetória marcada pela atuação nas políticas públicas e no cuidado humanizado, traz reflexões sobre direitos, saúde emocional, autocuidado e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano. Todas as quintas-feiras estará aqui compartilhando experiências, informação e acolhimento através de uma escrita sensível e comprometida com o universo feminino.

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