
Elas acordam cedo, resolvem problemas, cuidam da casa, dos filhos, filhas, do trabalho, da família e ainda tentam encontrar forças para sorrir. Dizem que elas são fortes. Guerreiras. Que dão conta de tudo.
Mas ninguém pergunta como elas estão.
Vivemos em uma sociedade que romantiza o cansaço feminino. Como se fosse natural que mulheres carregassem o peso do mundo nas costas sem reclamar. E quando elas finalmente não conseguem mais suportar, são chamadas de exageradas, perturbadas ou “surtadas”.
A verdade é que muitas mulheres estão adoecendo em silêncio. Ansiedade, exaustão emocional, insônia, irritação constante, sentimento de culpa, tristeza profunda e perda da própria identidade têm feito parte da rotina feminina de forma cada vez mais comum.
Enquanto os homens ainda são, em grande parte, ensinados a dividir responsabilidades, muitas mulheres continuam sendo cobradas para dar conta de tudo: trabalho, maternidade, casa, relacionamento, filhos, aparência, cuidado e até o próprio autocuidado. Como descansar, quando até o descanso vira obrigação?
Ninguém ensinou às mulheres que viver no automático também as afasta de si mesmas. Muitas seguem apenas sobrevivendo entre cobranças, responsabilidades e a necessidade constante de provar o próprio valor.
Mães atípicas, mulheres chefes de família, trabalhadoras que enfrentam jornadas exaustivas e mulheres emocionalmente sobrecarregadas convivem diariamente com a falta de apoio, a vulnerabilidade financeira e a ausência de tempo para si mesmas. E quando uma mulher adoece, toda uma rede ao seu redor também enfraquece.
A verdade é que muitas mulheres estão sobrevivendo, não vivendo. Porque passaram tanto tempo tentando sustentar tudo e todos, que esqueceram de olhar para a própria dor.
Talvez esteja na hora de parar de perguntar por que as mulheres estão tão cansadas e começar a refletir sobre tudo o que a sociedade espera que elas suportem caladas.
E fica a reflexão: será que estamos realmente descansando ou apenas recarregando energia para conseguir sobreviver à próxima semana?
Precisamos parar de aplaudir mulheres por suportarem tudo e começar a perguntar o que podemos fazer para que elas não precisem suportar tanto.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Com trajetória marcada pela atuação nas políticas públicas e no cuidado humanizado, traz reflexões sobre direitos, saúde emocional, autocuidado e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano. Todas as quintas-feiras estará aqui compartilhando experiências, informação e acolhimento através de uma escrita sensível e comprometida com o universo feminino.
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