Em artigo, Michelle Silvestre propõe uma reflexão sobre participação política, desigualdades e a importância de acompanhar propostas e trajetórias das candidaturas nas Eleições 2026

Por Michelle Silvestre
Estamos às vésperas de mais uma eleição. Em outubro, escolheremos presidente ou presidenta, governadores e governadoras, senadores e senadoras, deputados e deputadas federais e estaduais. Mas, antes de apertar os botões da urna, talvez seja importante fazer uma pergunta que ultrapassa nomes, partidos e promessas: o que esperamos das políticas para as mulheres?
Uma política pública realmente comprometida com as mulheres não pode existir apenas no discurso ou porque a palavra “mulher” aparece em um programa de governo. É preciso observar a trajetória de quem pede o nosso voto, suas posições, suas votações, os projetos que defendeu e, principalmente, como compreende o papel do Estado na redução das desigualdades.
A história mostra por que esse acompanhamento é necessário. Já existiram governos em que os recursos destinados às políticas para as mulheres sofreram reduções e em que a efetivação dessas políticas ficou aquém das necessidades da população. Por isso, não se trata apenas de perguntar quem promete proteger as mulheres, mas de compreender quais escolhas políticas são feitas quando é preciso definir prioridades, distribuir orçamento e transformar direitos em ações concretas.
Afinal, uma política pública só alcança a vida das pessoas quando existe decisão política, orçamento e execução.
E, quando falamos de mulheres, não podemos falar de desigualdade sem considerar raça e classe. As desigualdades não atingem todas da mesma maneira. São as mulheres negras, pobres, periféricas, trabalhadoras, quilombolas e tantas outras que frequentemente encontram maiores barreiras para acessar renda, educação, saúde, segurança e justiça.
Como nos mostra Carla Akotirene, são nas encruzilhadas entre raça, classe e gênero que diferentes formas de desigualdade se encontram e se articulam.
Por isso, votar também é olhar para a trajetória política de cada candidatura. É conhecer suas posições, acompanhar seus mandatos, observar como votou em matérias que afetam direitos sociais e perguntar que projeto de sociedade está sendo apresentado.
Entre a urna e a vida existe uma relação direta: aquilo que decidimos nas eleições pode chegar à nossa casa na forma de uma política pública ou da ausência dela.
Para nós, mulheres, participar das eleições não deve significar apenas escolher nomes. Significa também defender o direito de sermos consideradas em nossas diferenças e necessidades. Porque não basta falar sobre igualdade. É preciso perguntar: igualdade para quem, com quais recursos e com quais políticas?
Sobre a autora: Michelle Silvestre é assistente social e podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre os direitos das mulheres, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.