Olhar Feminino, por Michelle Silvestre

O perigo que chega disfarçado de cuidado

“Ele só tem ciúmes porque gosta de mim.”
“Ela não gosta que eu saia com minhas amigas.”
“Ele quer saber onde estou porque se preocupa.”
“Não posso usar essa roupa porque ele não gosta.”

Quantas vezes comportamentos como esses são tratados como demonstrações de amor, quando, na verdade, podem ser os primeiros sinais de uma relação marcada pelo controle e pela violência?

A violência contra as mulheres nem sempre começa com um empurrão, um tapa ou uma agressão que deixa marcas no corpo. Muitas vezes, ela começa de maneira silenciosa: na tentativa de controlar a roupa, as amizades, o celular, o dinheiro, o trabalho, os horários e até a maneira como uma mulher deve se comportar.

Pouco a pouco, o controle vai sendo naturalizado. A mulher começa a evitar determinadas situações para não provocar uma discussão. Deixa de encontrar amigas. Muda a forma de se vestir. Tem medo de responder. Passa a pedir permissão para coisas que antes fazia livremente.

E então surge uma pergunta importante: em que momento o cuidado deixa de ser cuidado e passa a ser controle?

Amor não exige vigilância. Amor não combina com medo. Amor não precisa de senha de celular, localização em tempo integral, isolamento ou ameaças para existir.

É preciso também compreender que romper com uma relação abusiva não é simplesmente “ter coragem”. Existem dependências emocionais, financeiras e familiares, além do medo, das ameaças e de uma série de fatores que podem tornar essa decisão extremamente difícil.

Por isso, quando uma mulher conta que está vivendo uma situação de violência, a primeira resposta não deveria ser: “Por que você não vai embora?”

Talvez a pergunta mais importante seja: “Como podemos ajudar você a sair dessa situação com segurança?”

Enfrentar a violência contra as mulheres é uma responsabilidade de toda a sociedade. E essa luta também precisa envolver os homens. Precisamos ensinar nossos meninos e jovens que masculinidade não é controle, posse ou agressividade. Precisamos construir relações baseadas em respeito, liberdade e igualdade.

Porque onde existe amor, não deveria existir medo.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos das mulheres, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

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