Olhar Feminino, por Michelle Silvestre

O SABOR DAS FESTAS JUNINAS TAMBÉM TEM MÃOS DE MULHER

Quando penso nas festas juninas da minha infância, as primeiras lembranças que me vêm à mente não são apenas as bandeirinhas coloridas, a fogueira acesa ou o som do forró. Lembro também das mulheres da minha família, reunidas na cozinha, trabalhando para que tudo estivesse pronto a tempo da celebração.

Lembro da minha avó ralando milho para fazer canjica. Lembro da minha mãe preparando pamonha, bolo de milho e tantas outras comidas que davam às festas juninas um sabor especial. Havia alegria, conversa, afeto e tradição. Mas havia também muito trabalho.

Durante muitos anos, essa cena me pareceu natural. Afinal, era assim que as coisas aconteciam. As mulheres organizavam a comida, cuidavam dos detalhes, preparavam a mesa e garantiam que todos fossem bem recebidos. Enquanto isso, era comum ver os homens conversando, assistindo à televisão ou aguardando o momento da confraternização, enquanto tudo ficava pronto.

Hoje, quando olho para essas lembranças com mais atenção, percebo algo que talvez passasse despercebido para muitas famílias. Grande parte do trabalho necessário para que a festa acontecesse recaía sobre as mulheres.

Essa reflexão não diminui a beleza das nossas tradições. Não é uma crítica à canjica feita em casa, à pamonha preparada em família ou aos momentos de convivência que marcam o mês de junho. Pelo contrário. É justamente porque essas memórias são tão valiosas que vale a pena refletir sobre elas.

As festas juninas continuam sendo um dos momentos mais bonitos da cultura nordestina. Mas talvez possamos pensar em formas mais compartilhadas de manter essa tradição viva. Se todos desfrutam da festa, todos também podem participar da sua construção.

Os meninos podem aprender a ajudar na cozinha. Os homens podem dividir as tarefas domésticas que antecedem as comemorações. As novas gerações podem crescer compreendendo que cuidar, organizar e preparar uma celebração não são responsabilidades exclusivamente femininas.

A tradição não se perde quando as tarefas são compartilhadas. Na verdade, ela se fortalece. Porque aquilo que é construído coletivamente se torna mais leve, mais justo e mais capaz de atravessar gerações.

Talvez uma das maiores homenagens que possamos prestar às mulheres que vieram antes de nós seja reconhecer o trabalho que realizaram silenciosamente durante tantos anos. Um trabalho que alimentou famílias, preservou costumes e garantiu que muitas das nossas melhores lembranças existissem.

Afinal, por trás do sabor das festas juninas, existem histórias, cuidados e mãos de mulheres que ajudaram a manter viva uma tradição que continua fazendo parte de quem somos.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos das mulheres, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.

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