Os tempos são outros

Uma vez por semana, às terças-feiras à noite, mais precisamente às nove horas, costumo sintonizar a televisão na Tevê Aparecida. Trata-se de uma tevê católica com fins lucrativos. Ou não? Afinal, nem só de reza vivem os homens no mundo moderno. Ali existe um padre apresentador de um programa sertanejo. É difícil passar despercebido do expectador, medindo seus quase dois metros de altura, vestido de caubói. Acredito que provoca suspiros na nova safra de mulheres que ainda não se “casaram” com Jesus. Apresentam-se naquele palco duplas de um legado musical às vezes interessante. O padre além de apresentar, também canta.

Alessandro Campos é o nome dele. Tem vinte e nove anos. Segundo até onde sei, é natural da cidade de Guaratinguetá, interior de São Paulo. Foi naquela cidade que nasceu o primeiro santo brasileiro. É bom não desdenhar do pároco. Embora seja um padre moderno, usando calças jeans apertadas e relógio Bulgari no pulso, não se separa de sua camisa com gola clerical. O telespectador enche os olhos com o figurino dele. Do jeito que a coisa vai, logo lançará uma butique com seus produtos. Para ser sincero com o leitor, acho a ideia válida. Sou até capaz de comparar e tenho bastantes amigos que comprariam. Vá que depois de usá-los me tornarei famoso também?

Procura distribuir simpatia entre os convidados. Ler passagens bíblicas e tece conselhos muitas vezes à moda apostolo Valdemiro. Aos poucos vai se tornando conhecido do público, se já não for. Ao fim do programa, exibe quadros com apelo fortemente social. Dia desses se vestiu de mendigo. Isso tem cheiro de Gugu. Como na televisão brasileira nada se cria e tudo se copia, o Aparecida Sertaneja gradativamente vai se transformando em um circo mambembe. Para preenchê-lo, existem os novos palhaços da igreja moderna: os padres cantores. Ainda não presenciei por lá a figura de um padre Marcelo Rossi. Talvez ainda não o tenham convidado. Quero vê-lo lá cantando. Isso me tornaria um expectador menos amargo e mais feliz…

Além de encantar o seguimento católico como padre, também parece fazer secesso como cantor. Em seu último programa, deu uma notícia que lhe pareceu muito boa. Seus “shows” para este ano pelo país estão quase esgotados. Dentro de dois meses, segundo ele, vai abrir sua agenda já para o ano de dois mil e quinze. Para este ano só restam mais vinte “shows”. Como se pode perceber, a tevê cristã lhe está proporcionando alguns pilas. Pena que ele esteja um pouco afastado do eixo Rio São Paulo. O padre Alessandro atua em uma paróquia em Brasília.

Vital B. Pontual é jornalista e autor do livro Escobar Júnior a Cobertura da VEJA aos Atentados de 11 de Setembro de 2001. Foi correspondente do jornal Bezerros Hoje ainda quando de versão impressa.

Email: vital.bel@bol.com.br

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