
SÃO PAULO – Trinta ou quarenta minutinhos de carro a partir do Centro significam absolutamente nada para os padrões paulistas de trânsito. Basta isso para se refugiar na copa frondosa da literatura infantil, bem longe da atmosfera densa de engarrafados e engravatados do concreto. Em cartaz até o dia 31 de agosto deste ano, no Sesc Interlagos, na Zona Sul de São Paulo, a exposição Grimm Agreste é um refresco para almas frenéticas. Um passeio encantador pelo universo de 156 historietas resgatadas da tradição oral mais remota pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, e recentemente reunidas e traduzidas para o português, pela primeira vez sem cortes nem eufemismos, no livro Contos maravilhosos infantis e domésticos, da editora Cosac Naify.
São histórias clássicas, como as de Rapunzel, João e Maria e Chapeuzinho Vermelho, apresentadas em sua versão crua. O interessante é que, além de trazer os enredos sem o verniz da indústria do entretenimento, que pasteurizou narrativas para acomodar princesas meigas e heróis fortões com seu incorrigível hábito de providenciar finais felizes, as ilustrações vêm com uma assinatura que é a nossa cara.Quem ilustra as aventuras e desventuras de madrastas, mutilados e mães perversas é o nordestino, pernambucano de Bezerros, J. Borges, célebre xilogravurista que só aprendeu o ofício que lhe sagrou famoso para afogar, no repertório fantástico dos versos e personagens de cordel, as mágoas de sua árida infância.
Mais do que embelezar a publicação da Cosac Naify, o artista acabou revelando interseções entre o popular e o clássico, o Agreste e a Alemanha dos Grimm. “A semântica da obra de Borges se assemelha muito ao universo daquelas histórias. Uma é a perfeita tradução do outro. Por isso, fizemos questão de trazer o Agreste para dentro da exposição”, diz o diretor de cenografia da mostra William Zarella Júnior.
J. Borges concorda que o cordel, a xilogravura e os Grimm têm tudo a ver. “Aquelas histórias se encaixam muito com o cordel. Muito. Porque foram feitas pelo povo. Tem umas até que já viraram cordel, feito a da Gata Borralheira. Mas tem umas ali que são muito agudas. Não sei como alguém tem coragem de contar aquilo a menino pequeno. É muita extravagância”, avalia o artista, que esculpiu na madeira a moral de 43 das histórias dos Grimm. E admite: embora seja muito solicitado para ilustrar livros, não foi uma missão fácil.
Depois de publicado, o livro fez muito sucesso. “Recebi carta e telefonema de todo canto do País. Todo mundo gostou.” Mas ele tem lá suas reservas. “Vou ser bem sincero: achei as cores muito chocantes. Está pintado demais. Eu só uso cor natural: vermelho, verde, preto.”
FAMA NÃO ENCHE BARRIGA
De suas incursões nesse mercado editorial, o tinhoso José Francisco Borges diz que foi com o escritor uruguaio Eduardo Galeano sua melhor experiência. “Fiz 185 matrizes para o livro As palavras andantes (Editora L&M, 316 páginas, 1994). Ele nunca botou defeito. Nunca reclamou um pingo no i. É um homem consciente, amigo. Muito sensível à arte.”
Àquela altura, Borges já tinha trabalhado com muitos outros escritores, como o pernambucano Cyl Gallindo, para quem ilustrou o livro As galinhas do coronel(Edição do Autor, 39 páginas, 1974); e Nagib Jorge Neto, de quem enfeitou a obra As três princesas perderam o encanto na boca da noite (José Olympio, 125 páginas, 1976). “Esse trabalho é muito importante para mim. Ajuda a pagar as contas”, revela J. Borges, dizendo que fama não enche barriga. “Já dei muita entrevista, recebo visita de estudante e de turista de fora do País direto. Mas a verdade é que até hoje não tenho como parar de trabalhar. Já passei da validade e não posso parar”, diz o senhor de 78 anos.
Declarado Patrimônio vivo de Pernambuco, J. Borges cobra deR$ 30 a R$ 60 numa gravura. E de R$ 5 a R$ 1 mil nas matrizes. “E o povo compra tudo, graças a Deus e a Ariano Suassuna.” Para Borges, foi o patrono do armorial quem decretou que sua obra era de grande valia. “Resultado: todo mundo acreditou”, diz Borges, que confessa, simples que só ele: “Nem acho tão bonito assim meu trabalho. Acho bom quando o povo acha bom.”
Leia matéria na íntegra na edição deste domingo (13) no Caderno C, do Jornal do Commercio