SETEMBRO AMARELO: QUANDO A DOR TAMBÉM TEM COR
Setembro chega trazendo novamente para o centro do debate a saúde mental e a prevenção do suicídio. Mas, quando falamos sobre sofrimento emocional, será que todas as pessoas enfrentam as mesmas condições para adoecer, pedir ajuda e encontrar proteção?
Essa pergunta é especialmente importante quando olhamos para a realidade das mulheres negras. Falar sobre saúde mental sem considerar as desigualdades sociais, raciais e de gênero pode fazer com que parte importante dessa realidade permaneça invisível.
É nesse contexto que precisamos compreender o conceito de interseccionalidade. Em palavras simples, significa reconhecer que diferentes formas de desigualdade podem acontecer ao mesmo tempo e se cruzar na vida de uma pessoa. Ser mulher e ser negra, por exemplo, significa vivenciar o machismo e o racismo simultaneamente. Quando essas experiências se somam à pobreza, à violência, à sobrecarga, ao desemprego ou à dificuldade de acesso às políticas públicas, as condições de vida podem se tornar ainda mais difíceis.
Por isso, quando uma mulher negra sofre emocionalmente, não podemos olhar apenas para ela e perguntar se está conseguindo ser forte. Precisamos também perguntar quais situações ela enfrenta diariamente e quais condições sociais podem estar contribuindo para o seu sofrimento.
Os dados ajudam a revelar essa realidade. Segundo o RASEAM 2026, relatório do Ministério das Mulheres, mulheres negras representaram 53,9% das notificações de violência autoprovocada entre mulheres adultas de 20 a 59 anos em 2024. São 46% de mulheres pardas e 7,9% de mulheres pretas.
Em Pernambuco, os números mais recentes também exigem atenção. Entre janeiro e junho de 2026, foram registradas 2.550 notificações de tentativa de suicídio. As mulheres representaram 73,1% desses registros. Entre os casos com raça/cor informada, mulheres pretas e pardas somaram 1.871 registros, aproximadamente 85%.
Esses números não podem ser tratados apenas como estatísticas. Cada notificação corresponde a uma pessoa que chegou a uma situação de sofrimento tão intenso que precisou ser registrada pela rede de saúde. E existe outro dado que merece atenção: 61% das pessoas notificadas em Pernambuco já haviam realizado uma tentativa anteriormente.
Isso nos mostra que prevenção não pode acontecer somente no momento da crise. É necessário acompanhamento, acolhimento, tratamento e uma rede de proteção capaz de permanecer presente depois que a emergência passa.
Também precisamos ter cuidado com a ideia de que toda mulher precisa simplesmente “ser forte”. Mulheres negras carregam historicamente diferentes formas de sobrecarga e, muitas vezes, são ensinadas a suportar a dor em silêncio. Mas ninguém deveria ser obrigada a transformar sofrimento em resistência o tempo inteiro.
Falar sobre Setembro Amarelo, portanto, também é falar sobre racismo, machismo, violência, desigualdade e acesso às políticas públicas. Não basta dizer “procure ajuda” se essa mulher não encontra um serviço disponível, acolhedor e preparado para compreender as diferentes dimensões de sua realidade.
Cuidar da saúde mental das mulheres negras também significa enfrentar as estruturas que produzem sofrimento e fortalecer políticas públicas de saúde, assistência social, educação, trabalho, proteção e enfrentamento à violência.
Porque cuidar da vida não pode ser apenas uma campanha de setembro. Precisa ser compromisso permanente.
E quando falamos sobre mulheres negras, precisamos lembrar que enxergar as desigualdades que atravessam suas vidas não é dividir a luta. É compreender que proteger vidas exige olhar para cada realidade com responsabilidade.

Michelle Silvestre é Assistente Social e Podóloga. Através da escrita, propõe reflexões sobre direitos das mulheres, saúde emocional e os desafios enfrentados pelas mulheres no cotidiano.