
UM MAR CULTURAL BANHOU BEZERROS

E logo ao despertar do sol, embora o céu estivesse nublado anunciando que o dia seria agraciado pela presença divina da chuva, uma movimentação diferente tomou conta de alguns trechos e ruas da cidade. Então, começaram a surgir eles e elas, e até crianças também, vindo de várias partes, e aos poucos tomando conta do espaço ao redor da Igreja São Sebastião e do Colégio Municipal Felismino Guedes. Com seus trajes típicos amarronzados ou azuis de zuarte em sua maioria, com seus lenços vermelhos no pescoço, alpargatas, o tradicional chapéu de couro ou de palha, as cartucheiras de flandre, e o fiel companheiro, protagonista de uma grande manifestação cultural, responsável por um dos mais originais espetáculos folclóricos do Nordeste: O Bacamarte nas mãos do Bacamarteiro. De repente um “mar azul” tomou conta de alguns espaços de Bezerros na manhã do último domingo (19/05), mas não foi um mar com cheiro de maresia, e sim com o cheiro da pólvora seca permeando a atmosfera alegre de um grande e importante encontro de batalhões, com seus integrantes e comandantes da cultura popular nordestina, condutores dos costumes de uma arte que sobrevive passando de geração para geração, e que existe desde os fins do século 18.
O II ENCONTRO DE BACAMARTEIROS DE BEZERROS

O mar azul e cultural que banhou Bezerros neste domingo (19/05) foi composto por 22 grupos de bacamarteiros, totalizando 450 componentes, que vieram de várias cidades do agreste, da mata norte, do sertão, e do Estado de Sergipe. O “II Encontro de Bacamarteiros de Bezerros” foi promovido pelo Batalhão 44, aqui do nosso município, que recebeu incentivo do poder executivo municipal para a realização do evento. A programação do festejo iniciou-se com a acolhida dos grupos no Colégio Municipal Felismino Guedes para um café da manhã e posteriormente uma apresentação cultural do Balé Popular Papanguarte, na Praça São Sebastião.

Em seguida, as tropas desceram em um cortejo para homenagem em frente à prefeitura, onde houve a homenagem ao bacamarteiro, Zé Teixeira (77 anos), da cidade de Gravatá, um dos chefes mais antigos dos grupos de bacamarteiros ativos. Na sequência houve a benção aos bacamarteiros numa missa na Igreja Matriz de São José, e de lá seguiram em veículos para a salva de tiros na área em frente a ETE – Escola Técnica, no bairro Santo Amaro II, onde foram recepcionados com muita música, e por fim, em meio ao clima de muita interação e contentamento houve o almoço de confraternização para todos os membros. Um evento com sucesso já consagrado, um encontro que sem dúvida, vai ficar na memoria daqueles que fazem parte das tropas militantes da tradição popular, como os tradicionais bacamarteiros.
ABBEPE E O BATALHÃO 44 – BEZERROS / PERNAMBUCO

O II Encontro de Bacamarteiros de Bezerros citado anteriormente, foi promovido pela ABBEPE e o Batalhão 44. Mas o que seria essa ABBEPE e esse Batalhão ou esse grupo? Quem toma conta ou coordena? Quantas pessoas fazem parte dele? Calma aí, vamos contar um pouco da história dessa tropa! O Batalhão 44, ou melhor, o Grupo Folclórico de Bacamarteiros Batalhão 44, como o próprio nome diz, é um grupo de bacamarteiros aqui do município de Bezerros, que atualmente é presidido pelo popular Valmir de Souza Abade. O Batalhão 44 foi fundado em 1940, por três irmãos, sendo eles: Martins Abade (pai de Valmir Abade) e seus dois tios Gercino Abade e Braz Abade (os três fundadores são falecidos), mas permanece no grupo ainda em atividade o quarto irmão dessa linhagem, José Abade. o batalhão tem mais de 80 anos de existência e atuação contínua na “Família Abade”, que vem preservando a cultura do bacamarte e apresentando essa tradição por integrantes também da 3ª idade.

O grupo de bacamarteiros Batalhão 44 possui hoje 40 membros no total, estando ativos uma média de 25 a 30 membros. De acordo com o chefe do Batalhão 44, Valmir Abade, ele faz parte da 3ª geração do grupo, e atualmente já existe a 4ª geração também atuando, e já está na expectativa da 5ª geração. Décadas depois da fundação do batalhão, percebeu-se a necessidade de criar uma associação que pudesse dar também um suporte melhor ao grupo, por meio de algumas ações voltadas a disseminação da cultura e tradição dos bacamarteiros. E foi com esse objetivo que no ano 2000 foi criada a ABBAPE – Associação de Bacamarteiros Bezerros Pernambuco, que permanece ativa até os dias atuais, conduzindo as diretrizes de atuação do Batalhão 44, esse grupo de bacamarteiros que representa nosso município em tantos lugares, e que os cidadãos bezerrenses precisavam conhecer mais da sua história.
A SAGA DOS BACAMARTEIROS: UMA HISTÓRIA QUE PRECISA SER CONTADA E VALORIZADA

Ao contrário do que muita gente pensa, de que a figura do bacamarteiro e o seu surgimento estão associados unicamente a vivência dos bandos de cangaceiros nordestinos, remonta à outra linhagem a explicação para a existência desses espetaculosos atiradores, que com suas espingardas artesanais lançam encorpadas golfadas de fumaça após tinir a terra com o estrondo de seus tiros.
Dentro do universo das manifestações culturais, os grupos de bacamarteiros são considerados como importantes Folguedos da cultura popular pernambucana, pela mistura característica das encenações teatrais mesclada com música, dança e evolução de movimentos, imitando as tropas dos soldados paraguaios erguendo suas armas em ato de empoderamento do grupo com seus armamentos. O inicio dessa tradição é divergente entre a ótica de vários historiadores, porém o que mais se constatou de fato, através de pesquisas, relatos e imagens (fotografias), é que a cultura do bacamarte nasceu após a Guerra do Paraguai.

De acordo com alguns pesquisadores, a origem dos bacamarteiros, possivelmente, estaria atrelada a invasão dos holandeses em Pernambuco, e que durante essa fase, uma quantidade de bacamartes de metal, propriamente de ferro, (como foi descrito no inventário das armas deixadas pelos próprios holandeses), teriam caído em poder dos senhores de engenhos e dos agricultores, passando também pelas mãos dos jagunços e dos cangaceiros, até que se tornaram as inseparáveis e essenciais companheiras do homem sertanejo. Todavia, conforme pesquisas de outros historiadores, e de elucidações mais atualizadas, parte do fato de que a explicação mais plausível, levando em consideração as características das vestimentas e dos movimentos que os bacamarteiros exibem em suas apresentações, a origem desses grupos realmente teria sido inspirada em meio ao período da Guerra do Paraguai, em 1865. Época essa, em que também os homens sertanejos eram recrutados, através de sorteios, para compor os chamados “quadros dos voluntários da pátria”, ou seja, uma espécie de companhia de reforço das tropas brasileiras na fronteira. Supõe-se, considerando esses fatos históricos, é que permeiam os primeiros movimentos dos bacamarteiros nesse período em que serviram aos voluntários da pátria, quando soldados brasileiros, agricultores sertanejos e senhores de terras, se apossaram de algumas armas (bacamartes), e essas armas se espalharam pelo interior nordestino. Historicamente e popularmente, a argumentação mais apresentada sobre a origem dos bacamarteiros é que após o término da Guerra do Paraguai, os sobreviventes do combate, ao retornarem aos seus vilarejos, traziam as armas recolhidas dos inimigos, e sob posse delas, contentes e orgulhosos por estarem de volta realizavam a festa da vitória, e para comemorar eles atiravam em frente às igrejas e capelas, com suas granadeiras e reúnas ribombantes, para com o estouro da pólvora seca saudarem os santos padroeiros São João e São Pedro. Em Pernambuco os primeiros registros sobre a existência de um grupo bacamarteiro que se tem conhecimento, refere-se a região agreste, propriamente na cidade de Caruaru. Mas, a nível da região nordeste, além do nosso estado, apenas a Paraíba e Sergipe foram estados que conseguiram manter a tradição dos bacamarteiros em suas manifestações festivas, culturais e cívicas, ao longo de mais de um século e meio de existência.

Antigamente, na cultura dos bacamarteiros era comum o grupo ser chamado de troça, tropa ou batalhão, os integrantes serem chamados de soldados, e o presidente e demais posições de hierarquias, serem chamados respectivamente de chefe, mestre, comandante, sargento, tenente, capitão ou major, tendo em vista que a existência dos bacamarteiros remonta a história das tropas de soldados enviadas à guerra. E geralmente há estrelas nos chapéus e nos ombros dos fardamentos simbolizando a patente dos comandantes. De acordo com Valmir Abade, chefe do Batalhão 44, essa forma de tratamento das patentes dentro dos batalhões já foi abolida há muito tempo, e de acordo com a dinâmica de cada grupo, eles se chamam pelo nome, e seus superiores de chefe, presidente, mestre, ou ainda de comandante, quando se trata de um respeito por um chefe mais antigo.
CURIOSIDADES IMPORTANTES

O Bacamarte é o objeto de maior estimação do bacamarteiro. É uma arma de fogo de origem antiga, espécie de espingarda grosseira, de cano curto e calibre grosso, de escorva inflamada por pederneira e de carregar pela boca, que geralmente tem formato de sino, confeccionada à mão. A arma foi modificada desde tempos remotos para poder ser adaptada ao uso dos bacamarteiros em suas apresentações festivas, “sendo considerada uma arma obsoleta, que não está mais em uso, usada apenas para fazer o tiro de ilusão e alegrar quem assiste aos espetáculos e apresentações”, informou Valmir, já que antes, em sua funcionalidade inicial em utilização na guerra paraguaia, a arma era munida com chumbo.
A Munição – A fabricação da pólvora usada para munição dos bacamartes antigamente era de responsabilidade e produção realizada pelos próprios grupos. Substâncias como o enxofre e o carvão fazem parte da lista com os elementos que compõem a fórmula da pólvora caseira, e que em muitas cidades os grupos de bacamarteiros os adquirem com a ajuda de custo por meio de incentivo das prefeituras, onde cada comandante de seu respectivo batalhão, registrado legalmente no Ministério do Exército, recebe do órgão uma autorização para a compra dos produtos. “Hoje em dia, compramos a pólvora diretamente da fábrica, com autorização do Exército, assim como também, já não fabricamos nossos bacamartes, algo que há muito tempo fazíamos. Atualmente compramos os bacamartes quando necessário, pois há os ‘armeiros’ autorizados que fabricam esse tipo de instrumento, como Zé Braz (Ameixa), Lenilson e Bola, ambos de Belém de Maria”, explicou Valmir Abade.
Os Tiros – a tradição dos disparos realizados pelos bacamarteiros com seus bacamartes é parte de suas homenagens e saudações aos santos padroeiros, como São João, São Pedro, São José, entre outros, e também em uma época comemorativa como Dia de Reis, o Natal, ou uma data cívica. A pólvora é utilizada como munição para produzir mais fumaça e tiros com barulhos estridentes, aspectos característicos do bacamarte.
A Vestimenta Azul – o mais popular e tradicional vestuário dos bacamarteiros é confeccionado com um tecido de algodão na cor azul que recebe o nome de zuarte, e faz alusão à moda militar no período da Guerra do Paraguai.
Trio Pé de Serra – cada batalhão possui sua banda de forró pé de serra, com zabumba, triângulo e sanfona de oito baixos, que ao som do xaxado escoltam todos os bacamarteiros em seus festejos e apresentações, e em suas mudanças rítmicas da melodia guiam e acompanham as evoluções das respectivas apresentações, conforme a necessidade de ritmo mais lento ou acelerado para os movimentos dos bacamarteiros.
Uma Data Comemorativa – pela importância da contribuição à cultura nordestina e sobretudo, à cultura pernambucana, e pela tradição dos cortejos e salva de tiros nos festejos juninos e outros eventos culturais, no Estado de Pernambuco, a data 24 de junho foi instituída por Lei Estadual Lei nº 15.152/2013, e sancionada pelo ex-governador Eduardo Campos, passando a fazer parte do Calendário de Eventos de Pernambuco, como o “Dia Estadual do Bacamarteiro”.
PARA REFLETIR:
“A temática cangaceira e bacamarteira está intimamente ligada ao universo mítico do camponês, do pequeno comerciante ou do artista independente sertanejo, ao ponto de, no ensaio, chegarmos a identificar a prática do bacamartismo como um dos mais fortes artifícios compensatórios das frustrações do cotidiano labor do homem comum no interior nordestino.”
(Olímpio Bonald Neto – trecho do livro “Bacamarte, pólvora e povo”)
Por hoje é isso, contamos um pouco da História dos Bacamarteiros aqui de nossa cidade e resumimos um pouco da trajetória desses gigantes da cultura nordestina ao longo de mais de um século de existência, persistindo, atuando e preservando suas tradições para as gerações atuais e futuras. A todos os bacamarteiros nosso respeito, e nossa salva de tiros simbólicos de gratidão. Obrigada!
Mariana Helena de Jesus