Entre Linhas, Fatos e Bastidores

Política perde quando a disputa ultrapassa os limites do respeito

A política pernambucana viveu neste domingo (30) um episódio que ultrapassa os limites da disputa eleitoral. Cartazes de autoria não identificadas, com ataques de forte teor pessoal contra a governadora e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), foram espalhados por ruas do Recife.

Campanhas eleitorais naturalmente envolvem disputas, críticas, divergências e comparações entre gestões. O confronto de ideias, projetos e partidos faz parte da democracia. O que não pode ser naturalizado é transformar a dor pessoal e familiar de um adversário em instrumento de ataque político.

O material que circulou neste domingo faz referência à morte de Fernando Lucena, marido de Raquel Lyra, que faleceu após um infarto em 2022, justamente no dia do primeiro turno das eleições daquele ano. Um dos cartazes apresenta uma grave acusação contra a governadora, enquanto outro utiliza uma montagem para associá-la a mulheres envolvidas em crimes contra seus companheiros.

Raquel Lyra se pronunciou por meio das redes sociais. Emocionada, pediu respeito à memória do marido, aos filhos, à família e à dor que carrega desde aquela perda. O episódio ganhou rápida repercussão no meio político e provocou manifestações de solidariedade, inclusive de adversários na disputa eleitoral. João Campos (PSB) repudiou o conteúdo dos cartazes e afirmou que buscará a Justiça para que sejam identificados os responsáveis pela produção, financiamento e distribuição do material. Ao se manifestar, João também relembrou a morte do pai, Eduardo Campos, ocorrida durante a campanha presidencial de 2014, e destacou que conhece de perto a dor de uma perda familiar em meio a um processo eleitoral. Ivan Moraes (PSOL), também candidato ao Governo do Estado, cobrou uma investigação rigorosa e prestou solidariedade à governadora. Outros políticos também vieram a público ao longo deste domingo para repudiar o episódio.

Independentemente de lado político, há uma linha que não deveria ser ultrapassada. Uma eleição precisa ser decidida pela avaliação de propostas, projetos, trajetórias e resultados. A dor de uma família não pode ser transformada em arma eleitoral.

Também é preciso responsabilidade para não antecipar culpados. Até que as autoridades esclareçam a origem do material, os cartazes devem ser tratados pelo que são neste momento: apócrifos (de autoria não identificada ou desconhecida).

Pernambuco sempre teve eleições marcadas por divergências, disputas e diferentes posicionamentos. Isso faz parte da democracia. O que não pode ser naturalizado é o uso da dor pessoal e familiar como instrumento de ataque durante uma campanha eleitoral.

Mas quando o debate deixa de ser sobre propostas e passa a atingir a intimidade, o luto e os familiares dos candidatos, a própria democracia perde. E, com ela, perde também a sociedade.

Por Luciana Melo | Redação do Bezerros Hoje

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