O TEXTO A SEGUIR É PARTE DE UMA EDIÇÃO ESPECIAL EM PARCERIA COM A AFABE E O BEZERROS HOJE, PELA COMEMORAÇÃO AO MÊS DA CONSCIÊNCIA NEGRA.

Sonho com o Coletivo
A reflexão em cima do dia da Consciência Negra, volta para a minha vida mesmo. No meu registro eu sou pardo. Na infância, em plenos anos 90 toda essa questão não era discutida. Principalmente em casa.
A consciência sobre a minha cor veio mesmo através da escola. Convivendo com meus colegas de classe. Na época vivíamos o auge da novela mexicana “Carrossel” no SBT e lá o personagem Cirilo além de ser ingênuo era negro.
As expressões como “fumo de rolo” entre outras eram reveladas no enredo como uma falta de afinidade. Todo esse contexto nos levava além. Ali naquelas trinta e poucas crianças eu era o que mais e aproximava da cor dele. Então o apelido era inevitável, fora o fato dos meus colegas homens carregarem literalmente um cabelo liso e de franja caído aos olhos. Moda naquela época (o famoso cabelo de cuia) para nosso popular. Eles sacudiam o cabelo com muita vontade a todo tempo e achavam mesmo sem ter noção ainda real do era tudo isso, um grande charme.

Diêgo Abade
Um dia fomos tirar uma foto para um calendário da escola e o fotografo levava um pente para colocar o cabelo de cada um no lugar. No caso das meninas as professoras se responsabilizavam.
Quando chegou minha vez o fotografo foi pentear mais minha mãe cortava ele sempre muito curto, pois se ficasse encaracolado era pior e ainda tinha o fato de não ficar igual ao deles e me poupou dessa angustia.
Quando os meninos notaram que eu não tinha o que arrumar no meu cabelo logo soltaram que a foto poderia sair de qualquer jeito pois eu era carequinha. Ali me abriu um mundo onde eu não fazia parte dele. Então fui crescendo assim. Entendendo que o erro estava no meu cabelo, na adolescência alisei, dei luzes para deixar no padrão.
Mas não combinava comigo. Depois fiz “o tal do permanente afro” mais colocava diversos cremes antes de sair de casa para domar os cachos. Pois não ficaria bem deixar eles livres da maneira que eles são. Terminando a saga, um certo dia encontrei com um daqueles colegas depois de anos e ele estava com Dread no cabelo. Oi? O cara que balançava suas madeixas? Então entendi que podia deixar as minhas em paz. Que minha cor e traços fossem respeitados diante as diferenças da nossa miscigenação. Gerando um país de muitas raças e cores e lugares onde eu posso chegar do jeitinho que sou.
Desculpem usar esse espaço como uma folha de um diário. Mas é só para que possamos entender que o dia 20 de novembro não é apenas um feriado. É um ato de resistência negra que precisa ser cuidado.
Agora é bola para frente e por favor: Não vamos repetir erros quer já passaram. Uma roda é feita de mãos diferentes que se unem em busca de parceria. Agradeço por depois de anos ter o direito de falar sobre esse assunto. Cheiro na alma de cada um!
Diêgo Abade.
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