Salsicha para não ficar com fome?

Durante toda minha vida escolar estudei apenas 3 anos em escola particular. Não descrevo isso por lamentação, mas até por alívio mesmo. Sendo de família “sacrificada”, como meu pai costuma dizer, precisei suportar algumas adversidades para aprender, principalmente, a arte da sobrevivência. Sou o segundo dos seis filhos do meu pai, apenas um ano mais novo que minha irmã mais velha. Estando nessa posição precisei passar por duras provas de resiliência e dor, mas acredite, hoje agradeço bastante essas dificuldades. Não tenho dúvida que minha formação de carácter e personalidade foram bastante moldados pelas provas que passei. Como o ditado diz: se aprende muito pela dor.

Vou relatar um desses casos que foi trágico e cômico ao mesmo tempo. Estava estudando a antiga 5ª série, hoje 6° ano. Mesmo diante de muitas dificuldades financeira, pois meu pai ainda estava construindo nossa casa, fui matriculado no colégio mais “badalado” de Bezerros, minha cidade. No ano anterior, quando estudante do 5º ano, numa escola do governo, minha professora incentivou bastante meu pai para ele me matricular em uma escola particular, pois ela dizia que eu era muito “inteligente” e estava me “perdendo” na escola que estudava. Triste fala da querida professora… Embora, fiquei muito feliz e agradecido pelas palavras dela – cheguei até a acreditar que era realmente inteligente-, meu desempenho escolar não foi nada bom para uma criança como fui descrito.

Precisei me adaptar a uma realidade bem diferente da que conheci, pois nunca havia estudado em uma escola particular desde a antiga alfabetização. Agora estava estudando com vários professores e com livros didáticos, quer dizer, estava pegando emprestado os livros, mesmo assim, uma mudança totalmente radical para uma criança de 11 anos. Não foi só na questão intelectual que precisei superar. Teve aquela parte que, infelizmente, ainda é comum nas escolas: o Bullying… Mas, isso vou deixar para outra oportunidade. Vou ficar na parte de sobrevivência por falta de ingestão de alimentos, em outras palavras: fome. Parece exagero, mas como dificilmente tomava café da manhã – decorrente dos problemas mentais da minha mãe -isso também ficará para outra oportunidade. O fato é que: quando o intervalo das aulas chegava, eu estava com uma fome infeliz.

Como meu pai pagava a mensalidade com muito sacrifício, não sobrava nenhum dinheiro para comprar algum lanche durante o intervalo. Alguém poderia dizer: por que não levava de casa? Respondo: levar o quê? A realidade era muito dura de encarar nessa época em casa, – pois a nossa fome não era por falta de alimento. Era por falta de alguém fazer, cuidar da gente e ter um pouco de organização… Mas sei que problemas mentais proporciona tudo isso. Então, o que fazer para conseguir comida?

Sempre fui muito curioso e observador. Mesmo acabrunhado observava tudo ao meu redor. Percebi que: um dos poucos amigos que tinha nessa escola, comprava quase todos os dias um delicioso cachorro-quente. Posso sentir aquele cheiro ainda hoje… O ritual era o seguinte: todos os dias na hora do intervalo, esse colega de sala entrava na fila da cantina e comprava seu magnífico cachorro-quente. Antes de começar a comer, ele cuidadosamente retirava a salsicha que vinha no meio do pão, e a jogava no lixo! Dá pra acreditar? Uma salsicha vermelhinha e super suculenta indo para a lata do lixo, e esse aqui que escreve morrendo de fome!? Depois que observei esse ritual quase que diário, criei coragem e fui até esse garoto. Fiz a seguinte proposta:

-Fulano (não revelarei o nome do amigo por questões evidentes), percebi que todos os dias você joga sua salsicha no lixo. Se eu enfrentar a fila do lanche para comprar seu cachorro-quente, você poderia me dá-la? (Acredito que minha habilidade de negociação nasceu aí.)

Ele não hesitou e concordou de imediato. Passando alguns dias, e já feliz em ter uma salsicha para comer, salvo os dias que ele comprava outra coisa, fiquei curioso em saber o porquê dele não comer aquela salsicha tão saborosa, perguntei:

-Você não gosta de salsicha, né? E ele responde:

  • Gosto muito!
  • Mas por que você joga ela fora todas as vezes? Indaguei sem entender…
  • Minha mãe disse que salsicha é cancerígena, e que se eu comer vou ter câncer no futuro…

Ainda estava mastigando o ultimo pedaço daquela salsicha quando ele falou isso. Engoli esse último pedaço numa mistura de pensamentos… e agora? O que vou fazer?

Passei alguns dias pensando se continuava comendo àquela salsicha, mesmo correndo o risco de ter câncer, ou, se suportaria a fome para não adoecer. O fato é que: durante esses dias de suplício, uma amiga gordinha tomou meu posto e passou a comprar o bendito cachorro-quente e ficou com a minha salsicha cancerígena… Para meu alívio, meu pai me tirou daquela escola um ano depois e finalmente voltei a comer a merenda que era servida na minha querida e amada escola do governo, quer dizer, quando tinha a merenda. Sabe qual era essa merenda? Macarrão com salsicha ou sopa de sardinha com salsicha.

Dedico esse texto a Pedro Rodrigo da Silva, meu primo e compadre.

Pierre Pessôa. Fundador da Deu Fome Delivery.

PS. Não utilizamos salsicha em nenhum dos nossos produtos.

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